segunda-feira, 9 de março de 2009




Duvido que algo ou alguém me faça tão feliz quanto ela. Fui sempre sozinha. Sempre. Só fui arranjar amigos em Fortaleza. Com meus grandes 12 anos pesando muito. Quando me mudei, minha mãe perguntou se eu queria voltar para o Christus, o colégio onde estudei quando tinha 7 anos. Eu recusei. Não queria voltar lá, porque lá, choque, eu não tinha amigos. Fui então para o Colégio Batista, relativamente perto do apartamento novo e conhecido por uma abordagem diferente e menos sufocante nas crianças. Mamãe estava radiante por morar na capital novamente, mas eu só sofria e sentia saudades da calmaria do interior. Primeiro dia de aula é uma tortura a qual fui submetida cerca de 6 vezes durante o tempo de colégio(s). Mas lá, naquele belo dia de 2001, algo aconteceu. Umas 10 pessoas vieram falar comigo DO NADA, se apresentaram, perguntaram de onde eu vinha e tudo mais. Simpáticas e prestativas ao extremo, me fazendo pensar que talvez as crianças daqui fossem meio retardadas. Teve uma menina que não veio se apresentar, ela estava ocupada fazendo seu show e amigos, porque, veja bem, ela também era novata. Os meses se passaram e ela tinha os amigos dela, do lado oeste da sala, e eu tinha os meus, no extremo leste. O pouco que falava com ela... Falar não descreve muito bem, porque eu só escutava as besteiras que ela dizia e lamentava mentalmente. Mas o pouco que ela dizia e eu escutava, me dava a impressão que ela era horrível, superficial e tentava muito se enquandrar. A odiei de cara. Paulista estúpida. Mas, claro, algo aconteceu novamente, não me lembro bem porque minha memória nunca fui o meu forte, mas de algum modo nós acabamos juntas. Começou quando eu dei aulas particulares pra ela de TODAS AS MATÉRIAS POSSÍVEIS. Nas longas tardes "estudando" na casa dela ou na minha, nos tornamos amigas. Porque ela era extremamente engraçada e débil, me fazendo rir mais do que eu riria com outra pessoa em toda minha vida. Minhas outras amigas ainda a odiavam, mas eu já estava dependente dos risos então empurrei a paulista no grupinho. Com um pouco de tempo e esforço, todos a amavam, como eu. E nos tornamos inseparáveis no decorrer dos anos. Sexta série, sétima, oitava, primeiro ano, segundo ano, pré-vestibular. Eu nunca tive uma amiga por tanto tempo, nunca aguentava ninguem e ninguem me aguentava. Também nunca fiquei muito tempo em um lugar só para fazer amigos. Mas ela, que eu tanto odiava, conheceu minha família, e não só o quarteto fantástico de pai-mãe-casal-de-filhos. Ela conheceu meus avós, de ambos os lados. Meus tios, primos. Foi à festas de aniversário comigo, à festinhas de ABC, ceias de natal, festas de ano novo. Viajou comigo para a praia, para a serra, para o futuro onde moraríamos juntas e seria festa todo dia. Todo mundo que era importante para mim agora a conhecia. Começou essa estranha tradição de me ligar todos os dias, várias vezes por dia, mesmo a gente estudando na mesma sala. E eu, que nunca gostei de falar ao telefone, passei horas de vida falando besteira e contando histórias. Ela estava enterrada na minha rede familiar e social, totalmente enraizada na minha vida, como ela permaneceria sem prazo de validade. Costumávamos brigar muito, principalmente por besteiras. Eu sempre fui muito insensível e orgulhosa para me arrepender. Ela sempre vinha me pedir desculpas então e fazer as pazes, mesmo quando ela era inocente. Isso foi uma coisa que ela me ensinou também, além de rir muito de tudo, pedir desculpas, mostrar fraqueza, mostrar humanidade. Com o tempo eu a ensinei muitas coisas e ela me ensinou o dobro. A convivência ficou facinha, facinha. Não brigávamos mais, nos apoiávamos, conversávamos, nos complementávamos. Capricórnio é amolecido por Peixes, Peixes é fortalecido por Capricórnio, entende? Tudo se encaixou. Durante muito tempo o meu maior medo era que a paulista voltasse para casa e me deixasse sozinha, de novo. A possibilidade de mudança era sempre constante devido à instabilidade familiar na casa dela. Ela me ligava de noite bem tarde, chorando porque ia embora, e eu chorava com ela. Porque é certo que as pessoas estão sempre crescendo e se modificando, mas estando próximas, uma vai adequando seu crescimento e a sua modificação ao crescimento e à modificação da outra. Mas estando distantes, uma cresce e se modifica num sentido e outra noutro, completamente diferente, distraídas que ficam da necessidade de continuarem as mesmas uma para a outra. Uma pessoa quando está longe vive coisas que não te comunica e tu aqui vive coisas que não comunica a ela. Então vocês vão se distanciando e quando vocês se encontram, vocês vão falar assim: oi, tudo bom e tal, como é que vão as coisas? E aí ela vai te falar por cima de tudo o que ela viveu e, não sei, vai ser uma proximidade distante. Não adianta, no momento que as pessoas se afastam elas estão irremediavelmente perdidas uma pra outra. Eu sabia disso melhor do que ninguem. Então eu chorava. Às poucas vezes que eu chorei, se me lembro bem, foi por ela ou com ela. Estranhamente, ela nunca se foi. A grande despedida nunca aconteceu. Parece que todas as minhas preces mal feitas e atéias foram atendidas. Ela permanecia constante comigo, quando tudo mais mudava. Em meio à corações partidos, risadas, shows de rock, piercings e mudanças de cabelo da parte dela, eu vi uma menina crescer. Eu vi uma família mudar. Eu vi que, não importasse o que, eu sempre a teria. Eu até chamei ela pra morar comigo no meu quarto quando ela foi expulsa de casa. Claro que não durou nem um dia, mas ainda assim a intenção valeu.
Hoje nós somos, supostamente, adultas. Nossos pais gritam, proíbem e não nos entendem. Estamos perdidas. Eu não sei o que fazer da minha vida, ela passou por um milhão e meio de empregos até voltar a estudar. Não temos dinheiro para fazer todas as lindas coisas que gostaríamos. Adiamos novamente a nossa tatuagem de amizade, de irmandade. Mas ela ainda me liga. Não todo dia, porque agora a gente é mais ocupada, ok, ELA é mais ocupada. Eu não faço absolutamente nada. Ela ainda me faz rir. Ela ainda divide o mundo dela comigo. Nós ainda saimos juntas pelo menos uma vez por semana. E ela ainda é parte indispensável, imprescindível, essencial e necessária em mim. Eu nem me lembro mais da vida antes da Aline.

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